12/01/2011

Parte IV, Capítulo II

O jovem garoto de nome Daniel Soares Lanvau, herdeiro de uma empresa Multinacional, que se achava o garoto mais azarado do mundo por não conseguir o coração de uma garota e não ter conseguido passar duas vezes no vestibular para Direito na Federal. Fato é que agora ele poderia se dizer o garoto de maior sorte de parte do mundo. Ele havia sido escolhido a dedo por não ter criado nenhum laço que o prendesse, ser ambicioso suficiente para querer crescer e ser completamente diferente de Antônio, o que faria talvez este querer voltar para o conselho, desistindo de criar o mimado rebelde. Mas Tony já esperava por esta peça pregada por Pedro e CIA para o ver de volta, o que ele não queria que acontecesse não importa qual fosse o desafio que tivesse que enfrentar.
Ao ser tocado na testa Daniel sentiu-se pela primeira vez fora de seu próprio corpo. Sua mente parecia flutuar em um lugar desconhecido, ao seu lado um vulto cinza se formava, o lugar era turvo e escuro, tendo apenas no alto uma entrada de luz, o vulto toma forma, parece a forma de um grande homem, feito de bronze, com uma bela armadura que remonta aos gregos.
- Olá Garoto, agora me diga, teu nome és? – disse a estátua.
- Anh? Quem é você? Onde estou? – respondeu o garoto que era apenas uma fumaça em meio à escuridão.
- Humf, e me disseste que tu sabes tudo? Sou eu, Pater, o antigo 10. Aqui você tem a sua verdadeira forma, não aquela forma esquisita que sua carne tem e que você nem mesmo pode escolhê-la. Aqui você escolhe tua forma e é escolhido por ela.
- Onde estamos?
- Em lugar nenhum, o único lugar em que somos realmente livres. Podemos voar, ou nadar mesmo sem ter ar ou água, podes ser um tubarão ou um Pombo se quiseres. Não há liberdade fora daqui, fora daqui há mundo, há padrões, há destruição, há Entropia, Desordem e Ordem batalhando a cada instante.
- Pater, como escolho minha forma?
- Simples, queira uma, pense em uma, aqui tu tens direito a vontades, seja lá o que entendes por isto.
No mesmo instante a fumaça começa a tomar forma, crescer e ficar com grandes músculos e uma arma enorme nas costas, a faixa vermelha na cabeça e o visual de filme americano não escondiam a prepotência do jovem.
- Ah, agora sim, sou grande e forte e nada pode me derrubar.
- Será? Será mesmo que é a tua forma que decide como tu és ou é o que preenche esta forma que pode te dar ou tirar forças? Tolo, não esqueça que estamos em um lugar onde a mente manda, só a mente te dá forças não músculos idiotas. – no mesmo instante o homem de bronze olha em direção ao grande Rambo e este vira um pequeno coelho, indefeso e de pêlos branquinhos como a neve.
- Anh? Por que mexeu em mim? Não disse que aqui eu era livre para ser o que eu quisesse?
- Disse, mas não é assim tão verdade, aqui EU sou livre para ser o que eu quiser, tu ainda não tens força para isto. O “poder” te dá forças e tua vontade chega ao poder.
- É só pensar?
- Tecnicamente... este é um lugar interessante. Sua mente comanda as transformações deste lugar, é como se eu tivesse entrado em sua cabeça e você na minha. É uma abstração, pura abstração. E não é lugar nenhum porque não há no espaço físico nada que seja este lugar.
- Acho que entendi.
- Bem, te trouxe aqui para falar do conselho. O nome é Conselho dos 12, mas na verdade não é assim um conselho, porque não aconselhamos a ninguém além de nós. A única coisa que nos une é a vontade de crescer sem ter que encontrar motivo e nem verdade alguma que nos ajude. É legal.
- Uhm, entendi, e como se escolhe quem faz parte ou quem não faz? Como me escolheram?
- Ninguém te escolheu você sabe disso, é incrível, mas por algum motivo os substitutos chegam a nós, não sabemos como, não somos nós que escolhemos.
- Destino?
- Blá.
- Ok, esquece... Posso te fazer mais uma pergunta?
- Claro pequeno coelho.
- Duas.
- Faça.
- Posso voltar ao normal?
- Seja lá o que é “o normal” claro.
Neste instante o pequeno animal toma a forma humanóide com as características do jovem no mundo físico, mas com uma calça jeans e um casaco cinza por cima de uma blusa preta.
- Bem melhor!
- Se você diz...
- Por que você saiu do Conselho?
- Ah, estava esperando esta pergunta, sabia que foi a primeira pergunta que fiz ao meu Pater? Bem, você tem religião?
- Sim, sou católico apostólico romano.
- Então, meu sonho é ter fé. Sabe, estou ficando velho, já passo dos 50 anos e hoje nada me agrada, tudo vejo erros e é muito fácil ser muito de si quando se é novo, mas quando vemos a morte de perto, chegando, é complicado querer dar a cara a tapa.
- Mas eu sou novo e creio na Santa Igreja e Na Bíblia, claro que acho que a Igreja tem seus erros, pois são Humanos...
- Ah, quem se importa. A Igreja erra há quase 2.000 anos e só ouço dizerem: “mas isso é o passado, não acontece mais”, “são Homens, não Deus”. Isso continua sendo uma perda de tempo para mim.
- E quanto a Bíblia?
- Hum, desconheço texto mais sem nexo. Primeiro Deus é um perverso que larga seus filhos à própria sorte, deixa-os serem tentados por uma cobra falante e por comerem uma maçã, condenam todos os seus descendentes por quase toda a eternidade. Não me parece um Pai, nem um Deus de amor nem um Deus de justiça!
- Mas o Antigo testamento é um pouco obscuro, muitos acreditam dele ter sido construído posteriormente e tal, mas o próprio Cristo diz que todos os que vieram antes dele estavam errados, ele veio consertar!
- É, diz mesmo, mas, se ele existiu, deturparam tudo que ele falou e ficou tudo sem sentido novamente, sem contar que a Bíblia foi reconstruída algumas vezes na formação da Igreja: “esse livro pode entrar” “esse não pode”. Enfim, é triste cair num poço vazio e ter a certeza que não terá ninguém pra te tirar de lá.
- É, deve ser mesmo...
- Mas me diga, o que gosta nesta tua religião?
- Ah, eu gosto de muitas coisas, entendo que tem muita coisa errada e não gosto quando começam a usar fatos históricos para denegri-la, porque acho que Deus está acima de toda e qualquer instituição.
- É, eu tenho um grande problema com esse Deus. Acho que ele nunca fez nada por mim para eu ter que reconhecê-lo como todo poderoso.
- Nunca passou por problemas na sua vida que superou por motivos inexplicáveis?
- Talvez uma ou duas vezes, mas acho que é muito pouco para alguém que quer tanto. Já ajudei tanta gente e para Ele o máximo que consigo ser é um pecador, é uma troca muito injusta. Não curto estas injustiças.
- Não sei, acho que Ele deve estar neste momento olhando por nós.
- Não está não. Estamos longe dos domínios do mal. Hahahaha.
- Religião não se discute!
-Discute sim, por falta de discussão é que ela ainda existe...
- Deus vai ter piedade de tua alma
- Interessante, deveria ter mesmo. Mas o que é Deus para você?
- Ah, é tudo!
- Tudo em forma de que? Natureza? Algo externo ao universo?
- Deus é tudo! Tudo que nós vemos, ouvimos sentimos, todos nós somos parte de Deus.
- Cada vez mais interessante... Quer dizer que somos parte de um Deus que é tudo? Todos os “versos” do espaço são Deus?
- É!
- E sua mente?
- Que que tem?
- É Deus?
- Não, minha mente sou EU.
- Uhm, então você não é Deus?
- Não pô, EU sou EU! Meu corpo é parte de Deus mas minha mente é o que me faz sujeito.
- Sujeito...

05/01/2011

Parte III

Ao ouvir teu amado, Carla olha para ele, ignorando completamente seu lado esquerdo, de onde vinha o carro assassino. Neste mesmo instante os dois automóveis se chocam, como Carla olhava para o outro lado não teve tempo de ter reação alguma, nem para tentar se proteger e a batida pegou em cheio em sua porta. Ambos os carros estavam irreconhecíveis.

- NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! – gritava incessantemente Antônio, desesperado correu rumo ao carro de Carla, tentando em vão livrá-la das ferragens. Algo havia atravessado uma de suas pernas e ela estava desmaiada.

Não conseguindo segurar o desespero, Tony via apenas a ambulância se aproximar, junto com o carro do Corpo de Bombeiros. Enquanto os bombeiros faziam o seu trabalho tiveram que retirar o homem que chorava e gritava por ali, levando-o para a ambulância, medindo sua pressão e tentando acalmá-lo, sem sucesso. O corpo de Carla era tirado das ferragens, enquanto o motorista do outro carro era levado a outra ambulância perto dali. Ao longe Antônio ouvia dois homens que diziam:

- Ele vai ficar bem, o Air Bag salvou a vida dele!

- Pois é, mas acho que a mulher não escapou com vida...

As coisas se embaralhavam, os pensamentos não se conectavam e mais uma vez parecia que o tempo não passava. Sua cabeça rodava, rodava e nada daquilo parecia fazer algum sentido, talvez não fizesse mesmo. Este foi o último pensamento antes que sua cabeça entrasse em pane e que apenas acordasse no hospital, meia hora depois do acidente.

- Olhe, parece que ele acordou! – aquela voz era inconfundível, era Pedro que estava ao lado de seu amigo no quarto do Hospital.

- Sim, está acordando, mas ele ainda pode estar em choque. – respondeu o enfermeiro.

Ao abrir os olhos Antônio via que estava em um quarto de hospital, com um enfermeiro checando o soro e Pedro, amigo de longa data ao lado.

- Pedro, por que eu? – perguntava com as primeiras lágrimas começando a aparecer.

- Não é você nobre amigo, desculpe-me, mas não é. Acha que é o único que perdeu alguém realmente importante na vida? Achei que você melhor do que ninguém aceitaria isto numa boa.

- Não é tão fácil quando é contigo, não é?

- Não, não é fácil... Mas é necessário, não pensas em ficar aí a vida toda, tem que levantar, tu ainda tens muito trabalho para fazer, a ordem...

- Não me fale nisso agora, não quero falar de trabalho ou coisas que nem preciso mais fazer.

- Claro que precisa. Desculpe-me, mas tenho que falar isso, tu saíste, mas não deixou ninguém em teu lugar. Não podes sair e deixar sua cadeira vazia.

- Claro que posso! Quem é você ou qualquer outro para dizer o que eu posso! Sou livre! Finalmente livre!

- Ok, me mate então!

Ao ouvir isso, o enfermeiro que saía da sala olhou nos olhos de Pedro que vidrado encarava o homem deitado na cama.

- Senhor, por favor, estamos em um hospital, mantenha a ordem.

- Ordem... – retrucou Antônio.

Neste momento Pedro se levantou e foi até a porta, enquanto andava olhava para Antônio, falando:

- Não podes me matar, porque não és livre, és escravo de diversas leis, de diversos princípios, não podes voar, mergulhar até o fundo da Terra, conhecer o Universo. Então não me venha com palhaçadas de liberdade, esta palavrinha é muito engraçada e só.

Já no batente da porta olhando para Antônio, colocou dois dedos na testa e bateu continência para Antônio antes que saísse. Seu amigo deitado na cama apenas engoliu suas palavras e olhou para sua mão, onde a agulha com o soro entrava.

Algumas horas depois Antônio chegava em sua casa, sabia que estava muito abatido, mas não entendia se pela morte de sua amada noiva ou se pelas duras palavras de seu único amigo. Ele precisava pensar no seu luto, mas também não poderia deixar de lado seu lugar no conselho dos 12.

Três dias depois, por volta de 1 da manhã Antônio atendia o telefone que não parava de tocar há quase 20 minutos.

- Oi?

- Pater?

- Fala Pedro, eu não sou mais do conselho.

- Eu sei, mas agora tens um pupilo, terás que ensinar a ele tudo que tu sabes, ou quase tudo. Ele será seu substituto na décima cadeira do conselho.

- Ok, eu falo contigo amanhã então.

- Hehe, ele deve bater em sua porta em alguns segundos.

- Como assim?

- Mandei ele aí, boa noite. – Pedro desligou o telefone.

- Mas...

Jogando o telefone na parede foi em direção à porta. Lá saiu e foi em direção ao elevador que estava subindo. Se posicionou na frente da entrada do elevador, que tão logo parou e abriu-se. Lá dentro um garoto, com não mais do que 22 anos, cabelos bem curtos com roupas estranhas, calças jeans, camisa verde e um casaco aberto cinza por cima. Nos pés os chinelos davam um tom mais estranho ainda àquele jovem, que logo foi indagado.

- Você é?

- Desculpe senhor, só posso falar com o Pater.

- Ah sim e você disse isso a todas as pessoas que falaram contigo? “Desculpe senhor, só posso falar com o cara que vai me ensinar coisas secretas sobre uma sociedade secreta que é tão secreta que ninguém pode saber....”

- Eu havia pensado nisso, mas depois o Um me falou que te reconheceria porque estaria me esperando na porta do elevador.

- Idiotas... Vamos, a porta está aberta. Onde já se viu, isso são horas!

- Me desculpe, se quiser volto amanhã.

- Quero sim! Mas não dá pra querer, entra logo.

Após entrar em seu apartamento, Antônio fechou a porta e voltou-se para o garoto.

- Então garoto, é você que vai ficar no meu lugar, não é?

- Sim senhor.

- E o que sabe sobre a Ordem?

- Quase tudo, na verdade acho que não vai ter que me ensinar nada! Somos 12 pessoas que respondem apenas por seus números e não devem se conhecer muito bem para evitar problemas. Não temos medo de nada e nada nos atinge, somos donos de nosso próprio mundo e evitamos que o equilíbrio seja quebrado, este equilíbrio é mantido pelo nosso pensamento, que como qualquer um, tem o poder de mudar o mundo, a História e a vida, os quais somos proibidos de nos intrometer. Somos senhores da vida e sabemos tudo sobre a morte!

- Nossa ein, te contaram uma besteira muito grande! Bom, vamos às explicações então.

Antônio mudou completamente de semblante, levantando a mão e colocando seu dedo indicador sobre a testa do jovem, a partir dali a visão do garoto começou a ficar turva e seu corpo parecia se deslocar daquele lugar, sua mente parecia se deslocar do seu corpo.