27/12/2010

Uma vida de volta.

“hoje vivemos um dia mágico, hoje será o dia do show mais esperado do ano! Vamos curtir juntos aqui no programa do Tinoco! Você não pode perder! É hoje, às 10 da noite....”

Enquanto o rádio desperta em uma linda manhã de domingo, Tony abre os olhos muito devagar. Pensando ainda deitado, sua cabeça ressoa. “Que? O despertador? Como assim? Estou em casa. É, esta é a minha casa, estou sozinho. Não, não estou sozinho, conheço este cheiro. Como vim parar aqui? Estou mesmo vivo. Estou inteiro, onde está aquele maldito? Quem mandou ele me salvar?” as perguntas se repetiam em sua mente. Seu corpo, por reflexo, bateu a mão ao lado no rádio relógio. 6:13 da manhã. Dia 02/02. Ao olhar para a data, com um pulo Tony sai da cama, espantado mais uma vez braveja

- QUE LOUCURA! Como estou em fevereiro? Ontem era julho!

Olhando para a cama desarrumada, alguém estava ali ao seu lado durante a noite. Sua amada noiva, já deveria ter levantado para ir trabalhar. Debaixo do relógio um pedaço de papel. Pegando o papel, Antônio, desesperado e confuso lia: “Omnia Vincit”.

- Inacreditável – olhando para a janela de seu apartamento, completa – inacreditável!

Após se recompor e tomar seu banho matinal, Antônio senta na varanda de seu apartamento, em frente a uma das praias mais famosas da cidade, olhando algumas pessoas que chegam e outras que passam no calçadão. Acende um cigarro, por um segundo pensa em apaga-lo, no próximo o cigarro está em seus lábios e a fumaça começa a tomar conta do ar.

- Será que tudo foi sonho? Será que eu morri e voltei para pagar meus pecados? Por que aquele maldito estava lá? Por que me salvou, se salvou? Brincadeira, nem para morrer eu consigo em paz...

Deixando escapar um sorriso meio macabro com a piada de mau gosto, logo olha para os lados e se levanta, indo até o telefone. Na sala de estar um sofá e uma poltrona acomodam três pessoas confortavelmente, mas a mania de deitar em dois lugares faz com que sua noiva geralmente tenha que sentar-se na poltrona antiga, que parece menos confortável do que a cama improvisada.

- Alô – do outro lado da linha alguém atende.

- Oi Pedro, aqui é Antônio, precisava tirar umas dúvidas contigo.

- Fale Bom Rapaz, estou aqui sempre para saciar suas inúmeras dúvidas.

- Parece que o Iniciado fez algo comigo.

- Iniciado? Qual deles?

- Tu sabes qual deles, o único que pode fazer algo comigo!

- Pelo que eu saiba não é especial, nada te protege de ...

- Não venha com mazelas, sabes muito bem do que estou falando! – interrompe Antônio com a voz alterada.

- Ok. Bem, o que ele fez?

- Estava eu no dia que saí do conselho, na verdade no dia que fazia um ano que saí do conselho...

- Mas esse dia seria daqui há alguns meses, não?

- Este é o ponto, lá estava eu, pronto para me... fazer algo estranho a mim mesmo. Ele me mandou de volta para cá.

- Muito bom, lembra os números da Mega Sena dos sorteios de março em diante? – completou com uma pequena risada

- Idiota, estou falando sério, eu voltei no tempo! E agora eu posso afetar o futuro? Criar um futuro paralelo?

- Não, você não pode mudar o futuro, você faz parte do presente, o passado não existe!

Enquanto Pedro falava, a mente de Tony fervilhava e um pensamento lhe deu um estalo que fez imediatamente desligar o telefone. Ficando ofegante na hora decide correr para fora do teu apartamento, deixando a porta aberta e o telefone jogado no chão, saindo de forma brusca procurando as escadas, não quis saber do elevador para descer os seis andares para baixo. “Hoje! É dia 02/02! Devem ser por volta de 7:30 da manhã... ainda dará tempo, ainda dará!”

Correndo desesperado, Antônio chega ao seu carro e lembra que as chaves ficaram no apartamento. Com uma lágrima começando a cair, corre para a saída, dando uma olhada no relógio da recepção do edifício que marcava 7:45. Sai instantaneamente, com medo de que voltar para casa para pegar a chave fosse perder tempo demais. Pelas ruas correndo, vai lembrando lentamente do que ele não deveria saber, do que ainda iria acontecer. A exatos 5 minutos do presente, há muitos metros, sua noiva voltava para casa, ela esqueceu o celular e uma pasta preta, deveria voltar urgentemente para pegar, pois sem ela não conseguiria mostrar seu novo projeto a seu coordenador. Mas ele sabia o que ninguém mais sabia. Ela morreria em um grave acidente de carro, ao atravessar um cruzamento um homem embriagado, mesmo naquela hora da manhã, atravessaria um sinal vermelho e pegaria o lado do carro dela em cheio, ela morreria lá mesmo, sem ter a mínima chance dele fazer nada, pois só saberia disso depois das oito da manhã, quando ele sairia para visitar sua mãe. Mas agora tudo poderia ser diferente, Antônio poderia correr e salvar a tua noiva, o tempo era curto, o trajeto muito longo, mas o desespero seria seu motor e a ansiedade seu combustível.

Ao chegar perto do cruzamento, Antônio vê na esquina ao seu lado o carro azul do embriagado passar. Era agora ou nunca, em poucos instantes o acidente aconteceria. Ele correu em direção ao cruzamento tentando avisar a sua noiva para não atravessar o cruzamento, mesmo com o sinal verde para ela. Ao chegar na esquina que ela atravessaria, o carro dela passa exatamente ao seu lado, sem que ela visse seu noivo desesperado, que só pode gritar.

- CARLA, CUIDADO, CUIDADO, O CARRO!

22/12/2010

Caos, uma História.

Rio de Janeiro, noite de inverno. Um frio tolo e até mesmo estranho assola o centro da cidade. Lá pelas 19 horas, no alto de um edifício da Av. Rio Branco um cigarro cai devagar. Lentamente rola no ar rumo ao chão. No alto do prédio um homem branco, alto olha para a cidade, imbuído de um grande desprezo observa as pessoas indo e vindo, saindo de seus escritórios e entrando nas vielas rumo aos bares mais tradicionais da cidade.

- Que Caos! Que Caos!

-Não repetiria isso se fosse tu... – Completa um outro homem. Negro alto, com um grande casaco marrom e um estranho chapéu, com um sorriso de canto de boca.

- Não sabia que estava aqui.

- Eu não estava, vim porque me chamou...

- Rohn, por que disso tudo?

- Vai saber...

- Rohn, você sabe porque estou aqui, não sabe?

- Ué, sei porque veio, não o que está fazendo.

- Rohn, não suporto mais, vou me jogar!

- Vai? Foi o que veio fazer, mas se vai, não sei.

Com dois passos em frente, Rohn chega ao lado de sua companhia e ajeitando o chapéu olha para o alto, o céu está nublado, castanho e as nuvens parecem estar bem carregadas. O pretenso suicida pergunta:

- Rohn, Vai chover?

- Como vou saber? As nuvens estão carregadas, eu acho que não vai chover agora não, só daqui há meia hora.

- Rohn, Sempre sabes de tudo, não é?

- Não. Sei só os dados iniciais. Onde vão chegar eu não tenho idéia. Sei só que vieste aqui para se matar, quando, ou se vai morrer hoje, eu não sei!

No mesmo instante, uma lágrima rola do rosto do estranho homem, que dá um passo para frente, chegando ao parapeito do edifício. Ele olha lá para baixo, vê pela última vez a rua, longe, longe. Ao fixar seu olhar no chão percebe uma gota bater em seu ombro, logo depois outras a seguem e uma fina chuva começa a cair. Com um sorriso inibido no rosto, ele diz:

- Rohn, está chovendo...

- É o que parece, mas talvez não esteja, não é Tony?

- Uhm, minha mãe me chamava assim, não lembrava que tu sabias disto. Ao que parece só não sabe prever chuva!

- Nem chuva nem respostas malcriadas, não esqueça de me chamar pelo nome, você sabe disso!

Com certa raiva, Rohn vira de costas e anda rumo à saída do terraço, enquanto Antônio Vieira da Silva se prepara para pular. Dá uma última olhada para Rohn, que está indo embora de costas, deixa as lágrimas escorrerem de seu rosto e se joga. No mesmo instante, olha pela última vez para a cidade, mais uma vez deixando escapar de sua boca:

- Que Caos!

No mesmo instante os carros parecem estar mais lentos, o corpo caindo do edifício parece cair mais devagar. A gravidade parece estar diminuindo, as pessoas parecem estar parando, as poucas aves que cortam o céu carioca parecem parar no ar. As barcas estão parando no meio da baía de Guanabara e o sino da Igreja, que começava a badalar, parece bater cada instante mais lento. O mundo para.

- CHEGA! Para com essa palhaçada, volte lá para cima e volte para casa!

O corpo de Tony, com os braços abertos no ar, olhando para o edifício em sua frente parece flutuar, agora o corpo dele não cai mais. Em sua frente, uma figura em pé, de braços cruzados, parecendo mesmo que voando.

- Falei para não repetir esta frase. Além do mais, tinha previsto que tu não morrerias esta noite. Não está na hora ainda, não sinto ninguém aqui para te buscar, você fica aqui!

- Me deixa morrer! Deixe-me ir! Quero ir para a ordem! Quero sair do turbilhão de coisas que me cercam! Quero fugir!

- Blábláblá, quero isso, quero aquilo... seja menos ridículo, se quer morrer, morra com honra! Já viveu toda a sua vida fugindo! Se encontre agora ao menos, se encontre na hora de seu final pelo menos!

Um silêncio ensurdecedor toma conta do ambiente, o tempo não passa, o tempo se cala. Tony olha nos fundos dos olhos de Rohn, que o encara com uma face fechada. Em seus olhos um brilho vermelho, que passa a envolver os dois homens.

- Sei porque você está aqui. Sei porque vai viver, mas não sei pra onde vai depois.

Tudo se apaga, apenas há escuridão.