22/12/2010

Caos, uma História.

Rio de Janeiro, noite de inverno. Um frio tolo e até mesmo estranho assola o centro da cidade. Lá pelas 19 horas, no alto de um edifício da Av. Rio Branco um cigarro cai devagar. Lentamente rola no ar rumo ao chão. No alto do prédio um homem branco, alto olha para a cidade, imbuído de um grande desprezo observa as pessoas indo e vindo, saindo de seus escritórios e entrando nas vielas rumo aos bares mais tradicionais da cidade.

- Que Caos! Que Caos!

-Não repetiria isso se fosse tu... – Completa um outro homem. Negro alto, com um grande casaco marrom e um estranho chapéu, com um sorriso de canto de boca.

- Não sabia que estava aqui.

- Eu não estava, vim porque me chamou...

- Rohn, por que disso tudo?

- Vai saber...

- Rohn, você sabe porque estou aqui, não sabe?

- Ué, sei porque veio, não o que está fazendo.

- Rohn, não suporto mais, vou me jogar!

- Vai? Foi o que veio fazer, mas se vai, não sei.

Com dois passos em frente, Rohn chega ao lado de sua companhia e ajeitando o chapéu olha para o alto, o céu está nublado, castanho e as nuvens parecem estar bem carregadas. O pretenso suicida pergunta:

- Rohn, Vai chover?

- Como vou saber? As nuvens estão carregadas, eu acho que não vai chover agora não, só daqui há meia hora.

- Rohn, Sempre sabes de tudo, não é?

- Não. Sei só os dados iniciais. Onde vão chegar eu não tenho idéia. Sei só que vieste aqui para se matar, quando, ou se vai morrer hoje, eu não sei!

No mesmo instante, uma lágrima rola do rosto do estranho homem, que dá um passo para frente, chegando ao parapeito do edifício. Ele olha lá para baixo, vê pela última vez a rua, longe, longe. Ao fixar seu olhar no chão percebe uma gota bater em seu ombro, logo depois outras a seguem e uma fina chuva começa a cair. Com um sorriso inibido no rosto, ele diz:

- Rohn, está chovendo...

- É o que parece, mas talvez não esteja, não é Tony?

- Uhm, minha mãe me chamava assim, não lembrava que tu sabias disto. Ao que parece só não sabe prever chuva!

- Nem chuva nem respostas malcriadas, não esqueça de me chamar pelo nome, você sabe disso!

Com certa raiva, Rohn vira de costas e anda rumo à saída do terraço, enquanto Antônio Vieira da Silva se prepara para pular. Dá uma última olhada para Rohn, que está indo embora de costas, deixa as lágrimas escorrerem de seu rosto e se joga. No mesmo instante, olha pela última vez para a cidade, mais uma vez deixando escapar de sua boca:

- Que Caos!

No mesmo instante os carros parecem estar mais lentos, o corpo caindo do edifício parece cair mais devagar. A gravidade parece estar diminuindo, as pessoas parecem estar parando, as poucas aves que cortam o céu carioca parecem parar no ar. As barcas estão parando no meio da baía de Guanabara e o sino da Igreja, que começava a badalar, parece bater cada instante mais lento. O mundo para.

- CHEGA! Para com essa palhaçada, volte lá para cima e volte para casa!

O corpo de Tony, com os braços abertos no ar, olhando para o edifício em sua frente parece flutuar, agora o corpo dele não cai mais. Em sua frente, uma figura em pé, de braços cruzados, parecendo mesmo que voando.

- Falei para não repetir esta frase. Além do mais, tinha previsto que tu não morrerias esta noite. Não está na hora ainda, não sinto ninguém aqui para te buscar, você fica aqui!

- Me deixa morrer! Deixe-me ir! Quero ir para a ordem! Quero sair do turbilhão de coisas que me cercam! Quero fugir!

- Blábláblá, quero isso, quero aquilo... seja menos ridículo, se quer morrer, morra com honra! Já viveu toda a sua vida fugindo! Se encontre agora ao menos, se encontre na hora de seu final pelo menos!

Um silêncio ensurdecedor toma conta do ambiente, o tempo não passa, o tempo se cala. Tony olha nos fundos dos olhos de Rohn, que o encara com uma face fechada. Em seus olhos um brilho vermelho, que passa a envolver os dois homens.

- Sei porque você está aqui. Sei porque vai viver, mas não sei pra onde vai depois.

Tudo se apaga, apenas há escuridão.

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